Resumo: O objetivo desta pesquisa é compreender de que maneira a cidade, como meio urbano vivido e sentido pode ser analisada pela ótica de um herói cego, criado por Stan Lee na década de 1960, cujo personagem incorpora toda a busca de um sentido para se viver na complexidade urbana, numa constante dualidade entre o bem e o mal. Para esse propósito, serão utilizados como base de conceitos abordados por Jane Jacobs, Viktor E. Frankl, e Edgar Morin, além de definições e observações de outros autores que auxiliam na compreensão da análise do Demolidor das HQs, como também as séries da Netflix.

 

Palavras chaves: complexidade urbana; busca de sentido; HQs

SUMMARY: The aim of this research is to understand how the city, as a lived and felt urban environment can be analyzed from the perspective of a blind hero, created by Stan Lee in the 1960s, whose character embodies all the search for a meaning to live in the city. urban complexity, in a constant duality between good and evil. For this purpose, they will be used as the basis of concepts approached by Jane Jacobs, Viktor E. Frankl, and Edigar Morin, as well as definitions and observations by other authors that help in understanding the analysis of the comic book breaker, as well as the Netflix series.

Keywords: urban complexity; search for meaning; Comics

 

Introdução

Na distante polis grega, os heróis mitológicos eram os que lutavam contra o mal, dando exemplo de virtude, valor e ética aos mortais. Hoje, os heróis continuam presentes no imaginário popular através das HQs, dos filmes dos cinemas ou ainda das séries da TV.

Para muitos especialistas, os modelos de virtudes presentes nos super-heróis, podem sim fazer muita diferença na boa formação dos jovens. Indo além, pela análise de um personagem muito conhecido tanto pelos mais velhos, como pelos jovens,  o herói deficiente visual, detentor de sentimentos tão comuns como angústia, frustração, alegria, tristeza, podem dar sentido na reflexão sobre a cidade, como um lugar de relações como é pensado pela jornalista Jane Jacobs, referência para o estudo do meio urbano, como também para a psicologia com Viktor E. Frankl, o qual se debruça sobre a logoterapia e até mesmo para a teoria do pensamento complexo de Edigar Morin pode ser valorizada ao analisar o universo de relações do Demolidor, herói criado por Stan Lee na década de 1960.

Obviamente que os heróis de hoje não são vistos como seres de existência real como para os povos do passado, mas é quase indiscutível que mesmo na consciência fantasiosa no imaginário popular, esses heróis colecionam legiões de fãs por todo mundo, os quais por meio das mensagens presentes no enredo, podem ser alvo de profundos debates sobre a complexidade do ser humano e estarem se relacionando com o seu lugar de vivência.

 

HQs:  Da rejeição ao reconhecimento

Houve uma época em que as Histórias em Quadrinhos – HQs eram consideradas inadequadas para a aprendizagem das crianças e jovens; logo, eram rejeitadas tanto por pais como pelos professores. No entanto, a linguagem dos quadrinhos originada nas tiras de jornais no final do século XIX, foi ganhando equilíbrio e alcançou sucesso com publicações especializadas, denominadas gibis, conceituadas como sendo um gênero literário de ficção.

Durante todo o século XX, a resistência pela utilização da leitura de quadrinhos em sala de aula permaneceu inalterada. Por um lado, havia a desconfiança de pais e professores em geral,  por verem nos quadrinhos uma espécie de “[…] meio de comunicação de vasto consumo e conteúdo”[1] que poderia influenciar negativamente o caráter dos jovens, visto que esse tipo de leitura era voltada para “o lazer, e por isso, superficiais  e com conteúdo aquém do esperado para a realidade do aluno”. Assim, proibia-se sua leitura nas salas de aula e até nas bibliotecas das escolas, e, segundo as fundamentações dos pedagogos da época, geravam “preguiça mental” nos estudantes e afastavam os alunos da chamada “boa leitura”:

Houve um tempo, não tão distante assim, em que levar revistas em quadrinhos para a sala de aula era motivo de repreensão por parte dos professores. Tais publicações eram interpretadas como leitura de lazer e, por isso, superficiais e com conteúdo aquém do esperado para a realidade do aluno. Dois argumentos muito usados é que geravam “preguiça mental” nos estudantes e afastavam os alunos da chamada “boa leitura”[2]

Nos dias atuais, as HQs são tratadas pelo universo escolar e acadêmico como uma forma de leitura que expressa ideias, sentimentos, pensamentos e pertencimento de um lugar, contribuindo significativamente para que os alunos possam ler, escrever, criar, pesquisar e dramatizar sobre um determinado tema. Waldomiro Vergueiro lembra que:

(…) o despertar para os quadrinhos surgiu inicialmente no ambiente cultural europeu, sendo depois ampliado para outras regiões do mundo. Aos poucos, o “redescobrimento” das HQs fez com que muitas das barreiras ou acusações contra elas fossem derrubadas e anuladas. De certa maneira, entendeu-se que grande parte da resistência que existia em relação a elas, principalmente por parte de pais e educadores, era desprovida de fundamento, sendo sustentada muito mais em afirmações preconceituosas em relação a um meio sobre o qual, na realidade, se tinha muito pouco conhecimento.[3]

 

A complexidade do personagem cego das HQs de Stan Lee na indústria Hollywoodiana

No século 20 o gibi tornou-se um meio de comunicação de massa conquistando um número crescente de leitores, impulsionado cada vez mais pelos personagens de super-heróis.  Os roteiristas dos quadrinhos tinham como missão resgatar o imaginário do cotidiano dos cidadãos modernos, relacionando a polis na antiguidade grega, com seus deuses e heróis que eram inspirações para os simples mortais, tornando-os modelos de comportamento[4]. Obviamente que os atenienses, até poderiam acreditar na real existência do todo poderoso Zeus e seu filho Hércules, ou mesmo os Vikings crendo em Odin e seu filho Thor, diferente portanto, dos mortais de hoje, que têm consciência que seus personagens preferidos das HQs são fictícios, mas isso não os impede de venerá-los de maneira fervorosa, e aprenderem a complexidade do ser humano que se relaciona com a cidade, com o planeta e com o espaço sideral.

Dentre tantos personagens criados, vale aqui destacar a segunda metade do século XX, quando as HQs dos super-heróis da Marvel criados em sua maioria por Stan Lee – morto em 2018 – passaram a ocupar significativos espaços no disputado mercado do entretenimento impresso. O universo dos heróis de Lee era carregado de personagens complexos que se relacionam entre si em dramas onde as ideias, humores, conflitos, personalidades se somavam a intrigadas narrativas configurando mentalidades em sua estrutura de entretenimento fantasiosos inspirados em fatos históricos, sociológicos e teorias científicas levando o público a se localizar no tempo e espaço podendo inclusive, interpretar o enredo de várias formas a partir da realidade de cada um.

Na década de 1990, Hollywood chamou para si a responsabilidade de levar para as telas dos cinemas os personagens de Lee. Óbvio que o faturamento dos investimentos das produções cinematográficas estava garantido pelo velho público fiel dos quadrinhos que teriam agora a oportunidade de contemplar seus heróis estáticos das páginas dos gibis, na movimentação tecnológica da tela do cinema.

O sucesso da Marvel foi muito além do esperado, fazendo com que a própria Disney despejasse em 2009, a quantia de US$ 4,3 bilhões para a compra dos estúdios Marvel, popularizando assim os heróis de Lee por todo planeta.

A Netflix[5] também não ficou para trás e passou a investir cada vez mais em heróis Marvel, como Punho de Ferro, Justiceiro, Luke Cage, Jessica Jones, e em 10 de abril de 2015, lançou a primeira temporada da série do Demolidor. O destaque é a pouca descaracterização do original das HQs, evidenciando apenas uma abordagem mais sinistra e violenta, reforçando assim, a narrativa do lado sombrio da cidade e seu sistema corrupto dominado por gangues, facções criminosas, e até a polícia, que na série da TV se apresenta envolvida com todos os tipos de crimes, revelando um lado nebuloso da existência humana.

É bem verdade que a Disney e Netflix sempre buscaram atender a linguagem e o perfil do seu público, adaptando os super-heróis Marvel de 40, 50 anos atrás para os dias atuais. Até porque, o conceito de herói para a criança de ontem pode não ser o mesmo para a de hoje, mas para os mais velhos, os valores do passado certamente precisam se fazer presentes nos atuais.

Dentre vários personagens, enredos e tramas que mudaram e se adaptaram ao longo das décadas, o herói cego é um dos poucos que em sua totalidade se aproxima de originalidade. Curiosamente, como é apresentado nas séries Netflix, Murdock continua com o mesmo enredo, com a mesma estrutura narrativa, sendo o mesmo pacato advogado deficiente visual, morador da cidade de Nova York, que nas horas vagas troca de roupa e transformava-se no “Demolidor”.

Narrativa pode ser definida como a sucessão dos fatos de uma obra, a sequência das ações em um texto. Essa sequência cria determinado tipo de significado. E é essa significação que faz com que a narrativa se desenvolva. Para o estudo de uma adaptação, é bastante interessante a percepção de duas classes distintas, mas não necessariamente opostas, nas quais se pode pensar o desenvolvimento das ações: o enredo e a trama (VERGUEIRO; RAMOS 2015, p. 136).

Diferente de tantos personagens que sofreram mudanças até radicais dos originais como Homem de Ferro, Super Man, Homem Aranha, Batman, Mulher Maravilha, assim por diante, o Demolidor não encontra dificuldades para naturalmente conquistar novas gerações como sempre foi. O maniqueísmo continua sendo a principal característica do herói que de todo modo, pode ser tratado como um anti-herói, até por conta da sua gana de justiça, mesmo que seja feita não pelas vias dos tribunais, mas pelas próprias mãos, chegando inclusive a matar. Isso porque, o Demolidor se preocupa com os problemas pontuais da sociedade.  Ele quer combater o crime e deter a corrupção, mas, não abre mão de seus ideais de justiça e luta noite após noite para impedir que aconteça com outra criança, o que aconteceu com ele: perder a visão num acidente e o pai num assassinato.

 

A ecolocalização humana: Stan Lee e um herói urbano próximo do “possível”

Nos quadrinhos, o Demolidor é um típico herói urbano que nos faz olhar a cidade por dentro, cujo local de domínio é sua própria vizinhança, bem diferente dos outros heróis de maior brilho como Homem Aranha, Thor, Hulk, Homem de Ferro, Super Man que sempre nos mostram a cidade por cima, do lado, por fora, levando-nos ao encantamento da contemplação da grandeza da cidade.

O Demolidor é um herói das ruas, dos becos, dos bares, dos prostíbulos, muito mais perto da sujeira. Entenda-se aqui, “sujeira” como “violência”, produzida por “seres humanos degenerados” onde todos os dias a cidade precisa ser limpa. Portanto, Murdock, o advogado, vive no limiar entre o justo e o injusto, entre o bem e o mal, observando de um lado a cidade vista por dentro, com os crimes nas vielas de Hell’s Kitchen, e do outro, a fé católica a qual ele é fervorosamente praticante. Nesta dualidade o personagem permanece em eterna busca de um sentido para preencher seu vazio existencial.

Fig.1 – Cena Netflix

Fig.2 – Cena Netflix

Fig.3 – Cena Netflix

Fig.4 – Cena Netflix

 

  

 

 

 

 

 

 

Essa complexidade da busca do ser humano para fazer sentido para sua vida no meio urbano se deve ao fato que o criador do “homem sem medo”, é um homem do seu tempo, seus personagens sempre foram complexos, marcados por conflitos internos; carregados de dilemas éticos, desvios de comportamento, crises existenciais e de consciência, além de dúvidas quanto ao próprio papel na sociedade.

O Demolidor seria, portanto, um paciente fascinante para o psiquiatra Vicktor E. Frankl por conta de todos os seus conflitos existenciais e também para o cientista Donald Griffin[6], o qual trouxe à tona o conhecimento revolucionário da ecolocalização animal. Não se sabe se nos anos de 1960, Stan Lee conheceu os estudos Frankl e Griffin, mas o fato que ambos, se vivos fossem, poderiam atestar que o personagem de Stan Lee está hoje bem próximo do limite do possível.

O herói cego de Lee, tem a percepção de pessoas, ambientes e objetos à sua volta por meio da construção de uma imagem mental utilizando-se da ecolocalização, que tem como grande exemplo Ben Underwood, que aos três anos perdeu a visão devido a um câncer nos olhos. Depois disso, desenvolveu uma espécie de radar, ou sonar que o permite orientar-se pelo eco do som que produz. Underwood teve até os 17 anos uma vida totalmente normal.

Fig.5 – Ben Underwood faz malabarismo na bicicleta como qualquer jovem.

Fig.6 – Joga basquete e acerta as cestas normalmente. [7] 

 

 

 

 

 

O exemplo de Underwood, leva os cientistas do mundo todo a se mobilizarem para tentar entender como o cérebro humano de uma pessoa cega lida com a percepção dos objetos, ambientes e pessoas à sua volta. Não existe ainda uma resposta sobre a natureza do “sentido de radar” do herói cego das HQs, e como isso pode ser associado à ecolocalização dos deficientes visuais. O que se sabe é que a ecolocalização como teoria, explica que é uma forma de ecolocalizar-se por meio de energias eletromagnéticas, sons, neste caso, a emissão de ondas de rádio para o cérebro.

De todo modo, Stan Lee foi muito feliz na criação do herói cego, pois os estudos da ecolocalização de hoje somam-se às análises neste artigo do personagem Demolidor como um ser humano semelhante a tantos humanos que têm no seu lugar de vivência, o meio urbano, um eterno conflito interno na busca de um sentido para sua vida diante das mazelas da sociedade, necessitando de pessoas comuns que lutam pela melhoria do lugar, e, portanto, o qual não precisou ser alterado em praticamente nada ao longo desses quase 60 anos de existência.

 

Relacionando a ficção de Mart Murdok com a realidade de Jane Jacobs

O herói cego e urbano de Stan Lee está contextualizado na década de 1960, período da Guerra Fria, de grandes discursos ideologicamente revolucionários que são empurrados pelas mega editoras da URSS que inundavam o mundo com publicações ideologicamente marxistas.

Por sua vez, Nova York, capital financeira do mundo capitalista, o Robert Moses assistia sua própria consagração como um dos maiores urbanistas do mundo, uma lenda para a megacidade estadunidense que, naquele momento, já havia assistido a desfavelização de várias áreas nova-iorquinas, dando espaço para a abertura de grandes vias de acessos. Sem sombra de dúvidas, Moses era o mais poderoso cidadão nova-iorquino do seu tempo, não é por menos que era ele que detinha em suas mãos toda verba federal destinada às obras da cidade. Um homem que ficou conhecido como “o desfavelizador”, “o arrasador de bairros”. Era ele o construtor de megaempreendimentos, aquele que rasgava a cidade com longas e largas pontes, viadutos, avenidas e bulevares com uma simples canetada.

Nesse ponto, imagine que você é apenas um morador de algum lugar de Nova York, e recebe a trágica notícia que o olhar devastador e construtor de Moses, voltou-se para o local onde você construiu sua vida, o seu lugar de vivência. Como deter a sede por obras incomensuráveis desse homem?

É nesse palco que acontece um dos mais famosos duelos urbanos do planeta, uma batalha épica pelo coração de Nova York. De um lado, o poderoso urbanista Robert Moses, que há décadas ditava as regras do urbanismo em Nova York, uma lenda que até hoje é comparada com o papa Sixtus V, o qual repensou Roma no final do Séc. XVI, e até com o barão Haussman, que remodelou Paris no século XIX. De outro lado, Jane Jacobs, uma jornalista que nunca sequer sonhou em ser urbanista e provavelmente Karl Marx (se foi lido por ela) nunca despertou em seu coração nenhuma ideologia revolucionária.  Jacobs é a incansável defensora de Greenwich Village que, pode ser comparada com o próprio personagem da ficção de Stan Lee. Já Robert Moses, seria o Wilson Fisk (Rei do Crime), inimigo feroz do Demolidor que está convencido que a cidade é dele, e nela pode fazer o que bem entender.

Fig.7  – Robert Moses [8] 

Fig.8  – Rei do Crime [9]

 

 

 

 

 

 

A princípio, uma reles jornalista dos guetos de Greenwich Village a qual nunca experimentou os bancos acadêmicos de uma universidade de arquitetura, urbanismo ou engenharia, não seria digna de sequer ter alguns segundos de perda de sono do prestigioso Robert Moses.  Que a saber, na mitologia nova-iorquina, Moses é um urbanista megalomaníaco que arrasa bairros inteiros em nome do capital, construindo a West Side Highway, podendo assim ser comparado com o Wilson Fisk, o Rei do Crime, que nos quadrinhos da Marvel pensava inicialmente a respeito do herói deficiente visual, não lhe representava nenhuma ameaça, já que era cego. Contudo, assim como o herói das HQs tinha outros poderes que iam muito além da visão, nossa heroína do mundo real não tinha os conhecimentos das pranchetas de arquitetos e urbanistas da época. Mas tinha o poder de se comunicar com os citadinos por meio dos textos jornalísticos, da escrita bem fundamentada, instrumentos que se opunham vigorosamente àqueles megaprojetos urbanísticos e arquitetônicos de Robert Moses, que Arthur Schopenhauer quase dois séculos antes, definiu como “música congelada”.

Semelhante ao Demolidor, Jacobs olhava a cidade por dentro, sentia a própria realidade a começar pela rua que dialogava com as calçadas e edifícios, constituindo as referências que caracterizam e identificam o lugar. “O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações”[10]

 

Fig.9 – Cena da revista Superaventuras Marvel, ed. 1,  julho de 1982 .

Fig.10 – Cena da revista Superaventuras Marvel, ed. 1, julho de 1982.

 

 

 

 

 

 

Assim como o Demolidor, Jacobs procurava justiça nas ruas de Nova York, importando-se com os pequenos detalhes da vida, e da complexidade que são as áreas urbanas, pois como pertencia e se identificava com o lugar de vivência, buscava notar fatos que passam despercebidos para a maioria dos arquitetos e urbanistas. Sob o nítido tumulto da cidade tradicional, há nos espaços em que ela funciona, uma ordem admirável que fornece garantia de segurança e de liberdade. Jacobs vê a complexidade da cidade, onde essa ordem forma-se de mudança e movimento, e, “[…] embora se trate de vida, não de arte, podemos chamá-la, na fantasia, de forma artística da cidade e compará-la à dança” [11](2011, p. 43). Para Jacobs não é “[…] uma dança mecânica […], mas um balé complexo, em que cada indivíduo e os grupos têm todos papéis distintos, que por milagre se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado”[12].

 

O personagem Murdok seria na realidade um objeto de estudo fascinante para Viktor Frankl

Se o Demolidor pode ser relacionado com Jane Jacobs, a relação com Viktor Frankl fica ainda mais interessante quando se observa que Matt Murdock, aprisionado na solidão de seu passado, procura de um sentido para sua vida, buscando uma justiça que parece não ter fim, definição que tentaremos explicar com aclamada “Em Busca de Sentido” de 1946. Haja vista, o livro mostra relatos de prisioneiros de campos de concentração que mesmo em situações severas de subsistência, encontraram alento em suas mentes para suportar a dor e poder viver mais um dia de suas vidas; além de relatar pessoas que sem sentido de vida, acabaram perecendo de forma dolorosa e rápida. Em uma de suas frases preferidas, Frankl utiliza de Nietzche ao dizer: “Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”[13].

Fig.6 – Cena da revista Superaventuras Marvel, ed. 1, julho de 1982. Observe que na lateral esquerda da poltrona, está o fantasma do Demolidor a única companhia do próprio Murdock.

No campo de concentração todas as situações conspiram para fazer com que o prisioneiro perca o controle. Todos os objetivos de vida são desfeitos. Para Frankl “A única coisa que sobrou é ‘a última liberdade humana’ – a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias”[14]. Esta última liberdade adota uma vívida significação na história de Frankl, ao relatar que “Os prisioneiros eram apenas cidadãos comuns; mas alguns, pelo menos, comprovaram a capacidade humana de erguer-se acima do seu destino externo ao optarem por serem ‘dignos do seu sofrimento’”[15]. De modo natural, o autor, como psicoterapeuta, intenta ajudar as pessoas a alcançarem esta exclusiva capacidade dos humanos. Despertando no paciente o sentimento de que ele é responsável por algo diante sua vida, tendo um sentido e um propósito para qual deseja viver, por mais penosa que sejam as situações.

E assim como esses prisioneiros de campos de concentração, Matt Murdock também busca um sentido para sua vida. E paulatinamente vai encontrando-o. Nas HQs mostra-se que Matt é um homem sofrido, machucado, magoado e abalado, assim como são os prisioneiros dos campos de concentração na época de ascensão do nazismo. E quando ele traja a suas vestes de Demolidor tudo isso agrava-se ainda mais. Mesmo que Stan Lee tenha construído um personagem mais risonho e animado, isso só se tornou realidade quando suportou altas doses de dualidade, tragédias e densidade. Para alguns críticos acirrados, por vezes, tanto sofrimento é exagerado, entretanto, para o fã do personagem, cada gota de sangue emaranhada com suas lágrimas é algo precioso. Perder a visão, o amor da sua vida, o pai, a identidade secreta, e tantas outras coisas e, ainda assim, mostrar resiliência, lutando com “unhas e dentes” e buscando um sentido para sua vida, é de se admirar.

Para Viktor Frankl, segundo a sua logoterapia, podemos encontrar este sentido na vida de três formas: “1. criando um trabalho ou praticando um ato; 2. experimentando algo ou encontrando alguém; 3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável”[16]. Ou seja, qual a relação com nosso herói? Vimos que nosso Matt Murdock buscou seu sentido de vida no trabalho, graduando-se em Direito e abrindo seu próprio escritório, além de ter um grande amigo como Franklin “Foggy” Nelson, se tornando o Demolidor e encontrando seus grandes amores, sendo que “Por seu amor a pessoa se torna capaz de ver os traços característicos e as feições essenciais do seu amado; mais ainda, ela vê o que está potencialmente contido nele, aquilo que ainda não está, mas deveria ser realizado”[17]. E quem mais sofreu do que Matt dos personagens da Marvel?      Ou seja, para Frankl, “A terceira forma de encontrar um sentido na vida é sofrendo”[18]. Foi só se aperfeiçoando em seu trabalho, encontrando alguém, se tornando o Demolidor e sofrendo, que Matt descobriu sentido para sua vida. E assim também foi para Jane Jacobs, em pleno furor da expansão estadunidense como Robert Moses ditando suas regras.

Matt Murdock observava a cidade por dentro, vendo a “sujeira” onde vivia, e tentando vencer Wilson Fisk lutando por seu bairro (Hell’s Kitchen), posto que também adota Jane Jacobs ao se ver em um cenário parecido, onde Robert Moses, o então poderoso urbanista, tenta destruir seu bairro (Greenwich Village). Jane Jacobs também comprova as palavras de Viktor Frankl ao possuir as três diferentes formas de sentido da vida, pois via a mesma apreensão maternal com o destino dos típicos e pequenos bairros das complexas cidades, lutando por um ideal comum como Matt Murdock, pois a partir dos anos 50, Robert Moses começou a ameaçar fazer operações de reurbanização que demoliam não somente casas, porém também o estilo de vida que as pessoas tinham. E defendendo essa causa, Jacobs se lançou em uma “guerrilha”, fazendo manifestações públicas que auxiliavam a promover e que ocasionaram até mesmo sua prisão nas décadas de 50 e 60.

 

Murdok na cidade de Jacobs a luz do pensamento complexo de Edgar Morin

A luz de Morin, a palavra “complexidade” é aquela que não faz reprodução dos pensamentos simplistas e nem reducionistas, de modo que a complexidade não é vinculada a uma vertente de pensamento. Compete ao pensamento complexo ter a capacidade de considerar as influências que são recebidas no âmbito externo e interno, agindo de maneira não individual e não isolada, relacionando ações nas quais desdobram novas faces. O pensamento complexo expande o saber e nos leva a um maior conhecimento sobre os nossos problemas básicos, interligando-os, contextualizando-os, colaborando na nossa competência de enfrentar a incerteza e a insegurança.

O autor traz o princípio de que o pensamento que nos consente conectar às coisas que estão isoladas umas com as outras. Para tanto, faz-se imprescindível a edificação de uma ideia multidimensional. Para Morin, o pensamento parte das “[…] noções de ordem/desordem/organização, sujeito, autonomia e da auto-eco-organização como elementos decorrentes e presentes na complexidade”[19]. Destarte, a complexidade é raciocinada não de modo como é utilizada no cotidiano, todavia, sim, “[…] onde se produz um emaranhamento de ações, de interações e de retroações”[20].

E como Jane Jacobs via a complexidade das cidades? Ela discorre sobre isso ao proferir:

[…] veja só o que construímos com os primeiros vários bilhões: conjuntos habitacionais de baixa renda que se tornaram núcleos de delinquência, vandalismo e desesperança social generalizada, piores do que os cortiços que pretendiam substituir; conjuntos habitacionais de renda média que são verdadeiros monumentos à monotonia e à padronização, fechados a qualquer tipo de exuberância ou vivacidade da vida urbana; conjuntos habitacionais de luxo que atenuam sua vacuidade, ou tentam atenuá-la, com uma vulgaridade insípida; centros culturais incapazes de comportar uma boa livraria; centros cívicos evitados por todos, exceto desocupados, que têm menos opções de lazer do que as outras pessoas; centros comerciais que são fracas imitações das lojas de rede suburbanas padronizadas; passeios públicos que vão do nada a lugar nenhum e nos quais não há gente passeando; vias expressas que evisceram as grandes cidades. Isso não é reurbanizar as cidades, é saqueá-las[21].

Essa complexidade é explicada por Edgar Morin em seu livro “Introdução ao Pensamento Complexo” afirmando ser “[…] efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico”[22]. E dialogando com Jacobs, “As cidades são um imenso laboratório de tentativa e erro, fracasso e sucesso, em termos de construção e desenho urbano. É nesse laboratório que o planejamento urbano deveria aprender, elaborar e testar suas teorias”[23]. É preciso observar por uma outra perspectiva essas cidades complexas, pois,

Ao contrário, os especialistas e os professores dessa disciplina (se é que ela pode ser assim chamada) têm ignorado o estudo do sucesso e do fracasso na vida real, não têm tido curiosidade a respeito das razões do sucesso inesperado e pautam-se por princípios derivados do comportamento e da aparência de cidades, subúrbios, sanatórios de tuberculose, feiras e cidades imaginárias perfeitas – qualquer coisa que não as cidades reais[24]

Por mais de cinco décadas, além de ser autora de influentes teorias, Jane Jacobs acabou virando sinônimo de ativismo urbano, de tal modo como nosso herói das HQs, “Ela inventou táticas de mobilização que seriam imitadas em metrópoles ao redor do mundo”, relata Mary Rowe, ex-vice-presidente da MAS (Municipal Art Society, a Sociedade Municipal de Artes de Nova York)[25]. Que assim como nosso justiceiro, o Demolidor, que atuava nas ruas de Hell’s Kitchen, “Ela não era uma intelectual de escritório. Sempre preferiu observar e agir na rua”, complementa Mary Rowe[26].

E toda essa relação de complexidade urbana, o pensamento complexo de Morin traz o herói de Stan Lee e para a jornalista Jane Jacobs, o sentimento de pertencer e se identificar com o lugar de vivência e, consequentemente, o sentido para se viver. Assim como o Demolidor vive constantemente sua vida de pequenos gestos, ajudando algum velhinho ao atravessar a rua, ou se importando com pequenos detalhes, seja em atos corruptos que se desenvolve na sociedade, seja pela luta por bons dias em seu bairro Hell’s Kitchen tendo com o poderoso Wilson Fisk, um embate corpo a corpo. Jane Jacobs, evidencia que as histórias em quadrinhos do então Stan Lee, podem ser utilizadas para ensinar que há uma intensa relação entre a ficção e a realidade, pois Jacobs confrontava – não vamos dizer “vilão” – na década de 60 chamado Robert Moses, e observava a complexidade nas ruas de Nova York, haja vista esse emaranhado de relações ser “Feito de gestos pequenos, anônimos e rotineiros – as crianças que vão para a escola, o comerciante que abre a loja, os estranhos que frequentam o bar, a senhora (a própria Jacobs) que põe o lixo na rua –, esse “balé da calçada” é executado dia e noite”[27].

 

Considerações finais

Este presente estudo demonstrou que as HQs foram até o fim do século passado criticadas e desprestigiadas por diversos educadores e outros membros que compõem a comunidade escolar, porém atualmente seu valor pedagógico demonstra que a didática presente de seus elementos fazem deles uma ferramenta eficaz no apoio para com os alunos leitores conhecedores e assíduos em relação à importância do ler, desde que a instituição escolar não se limite. Nos dias atuais, as HQs são tratadas pelo universo escolar e acadêmico como uma forma de leitura que expressa ideias, sentimentos, pensamentos e pertencimento de um lugar, contribuindo significativamente para que os alunos possam ler, escrever, criar, pesquisar e dramatizar sobre um determinado tema.

Nessa direção, o professor, enquanto conhecedor da complexidade que há na cidade, reconhecendo a importância do sentido da vida, do lugar de pertencer e construir uma identidade, se depara conjuntamente ao seu aluno, com as HQs que trazem a relevância para um melhor desenvolvimento desse aluno, tornando-se questionador, apto a debater, dialogar e refutar numa influência mútua real em que o ato de ler seja vivenciado em toda sua plenitude. Posto que o gênero discursivo em HQs, muito além das páginas humorísticas e multicoloridas, estimula leituras que exploram diversificados signos, cooperando para que o aluno possa aprofundar e ampliar aquilo que lê, dando um sentido à sua vida no meio urbano.

Essa relação criada neste artigo trouxe a concepção de que a vida é um verdadeiro palco de acontecimentos, que assim como o herói Matt Murdock, e essa busca da humanidade no bairro defendido tão apaixonadamente por Jacobs, nos faz encantar, e procurar um meio de pertencer e formar uma identidade de lugar de vivência, para que assim possamos descobrir o nosso sentido de vida. Nos nossos dois heróis há a utopia da busca incansável pela humanização e compreensão da cidade por meio da observação de suas formas e, sobretudo, de seu cotidiano.

 

REFERÊNCIAS

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FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. 1984. Disponível em: http://mkmouse.com.br/livros/EmBuscaDeSentido-ViktorFrankl.pdf. Acesso em: 04 ago. 2019.

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JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3843818/course/section/923498/JACOBS-Jane-1961-Morte-e-Vida-de-Grandes-Cidades%20%281%29.pdf. Acesso em: 04 ago. 2019.

KISH, Daniel. Evaluation of an echo-mobility training program for young blind people Unpublished master’s thesis. California State University, San Bernardino, 1995.

LORES, Raul Juste. A Aventura da Ativista Urbana Jane Jacobs. 2016. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/05/1768525-a-aventura-da-ativista-urbana-jane-jacobs.shtml. Acesso em: 04 ago. 2019.

MORENO, Júlio. Jane Jacobs: A ativista que peitou (e venceu) o “master builder” de Nova York. 2018. Disponível em: https://www.caubr.gov.br/jane-jacobs-a-ativista-que-peitou-e-venceu-o-master-builder-de-nova-york/. Acesso em: 04 ago. 2019.

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PETRAGLIA, I. C. Edgar Morin: A educação e a complexidade do ser e do saber. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

PILLAR, Analice Dutra. Leitura e Releitura. In:____. A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 1999. Cap. 1. p. 9-21.

 

[1]. VERGUEIRO, 2004. p. 7

[2].  VERGUEIRO,2009. p.09

[3]. VERGUEIRO, 2010. p. 17

[4]. GUBERN, citado por SMEE (2008).

[5].  É uma empresa global de filmes e séries de televisão via transmissão.  Fundada em 1997, conta hoje com mais de 100 milhões de assinantes.

[6]. Professor americano morto em 2003, lecionou zoologia em várias universidades. No início da década de 1940, enquanto estudava na Harvard University, ele começou a estudar o método de navegação dos morcegos, que ele identificou como ecolocalização animal.

[7]. https://www.youtube.com/watch?v=vTDlveYlcEM (acesso em 03/08/2019)

[8]. https://www.nydailynews.com/new-york/brooklyn-battery-tunnel-final-link-moses-plan-nyc-article-1.795800 (acesso em 05/08/2019)

[9]. https://pt.wikipedia.org/wiki/Rei_do_Crime (acesso em 05/08/2019)

[10]. JACOBS, 2011, p. 43.

[11]. __________­­­__, p. 43.

[12]. __________­­­__, p. 43.

[13].  FRANKL, 1984, p. 05.

[14]. _____________ p. 05.

[15]. FRANKL, 1984, p. 05.

[16]. FRANKL, 1984, p. 76.

[17]. _____________ p. 77.

[18]. FRANKL, 1984, p. 77.

[19]. PETRAGLIA, 1995, p. 41

[20]. MORIN, 1996, p. 274.

[21]. JACOBS, 2011, p. 15.

[22]. MORIN, 2005, p. 13

[23]. JACOBS, 2011, p. 16.

[24]. JACOBS, 2011, p. 16.

[25]. LORES, 2016

[26]. ______, 2016

[27]. JACOBS, 2011, p. 11.